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junho 17, 2018

Mindjeris di panu pretu - José Carlos Schwarz!


José Carlos Schwarz foi uma das descobertas mais interessantes que fiz no âmbito das pesquisas que realizei para me preparar para a primeira missão de voluntariado na Guiné-Bissau em agosto e setembro de 2016.
Desaparecido com apenas 27 anos, num trágico acidente de aviação em Cuba, em 1977, José Carlos Schwarz teve e continua a ter para os jovens o estatuto de um verdadeiro herói na Guiné-Bissau.
Já conhecia esta canção, mas só agora, por acaso, encontrei a tradução num registo de um programa da RTP, de onde retirei também o extrato que passo a transcrever:
José Carlos Schwarz foi um dos principais intérpretes da música de intervenção guineense, no período da guerra. É considerado o fundador da música moderna guineense. No início dos anos 70 do século passado fundou o grupo Cobiana Djazz.
As suas canções, em crioulo, começaram a ser tocadas na rádio de Bissau, facto inédito que causou perplexidade nas autoridades portuguesas e um grande impacto na população guineense.
Mindjeris di pano preto – Mulheres de pano preto – foi uma das primeiras e das mais importantes.



Mindjeris di panu pretu
Mulheres de pano preto

Mindjeris di panu pretu
Ka bo tchora pena (2x)

Si kontra bo pudi
Ora kun son di nos fidi
Bo ba ta rasa
Pe tisinu no kasa (2x)

Pabia li ki no tchon
No ta bai nan te
Bolta di mundu
Di rabu di pumba (2x)

Ma bo na limpa bo korson
Ku no sangi ku na kai na tchon (2x)

Mindjeris di pano preto
Ka bo tchora pena… (3x)


Mulheres de pano preto
não chorem mais

Se puderem
quando um de nós cair ferido
rezem por nós
para que regressemos à nossa casa

Porque aqui é que é a nossa terra
não importa aonde formos
Por mais voltas que der o mundo
volta-se sempre ao mesmo lugar

Mas vocês hão de limpar o coração
com o nosso sangue que cai no chão

Mulheres de pano preto
não chorem mais…

Abraço para todos, mas especialmente para os amigos da Guiné-Bissau!
ProfAP

junho 16, 2018

Super Ronaldo no Portugal-Espanha? Não me parece…



Sou fã do nosso abono de família futebolístico, mas o que tivemos ontem  a alimentar o nosso contentamento foi um… super-Ronaldo!

Colocada antes de um nome, super não é uma palavra autónoma, mas sim um prefixo. Logo, não pode haver “ar” entre o prefixo e o nome. Ou aglutina ou hifeniza. Como a regra (não alterada pelo AO90) diz que com super, híper e inter só há hífen antes de palavras iniciadas por r ou h, super-Ronaldo! E há uma razão extra para a colocação do hífen, pois o AO90 contempla um procedimento já aplicado, mas só agora consagrado numa regra:
Há sempre hífen antes de nomes próprios (neste caso, Ronaldo), siglas (anti-RTP) e estrangeirismos (anti-apartheid).
Quando autónoma, a palavra ganha um acento (por ser grave terminada em r): súper. Vejamos os casos à lupa.

POSIÇÃO NA FRASE
REGRA
FUNÇÃO
1. Antes da palavra a que se refere
Só não há hífen quando tem a função de advérbio, significando muito, bastante: “É súper longe!”/”Estou súper interessado!”
Advérbio

2. Depois da palavra a que se refere
Sempre sem hífen:


“Esse carro é súper!”
Advérbio

“Gasolina súper.” (Redução de supercarburante)
Adjetivo

“Vou ao súper.” (Redução de supermercado)
Nome

A terminar, os votos de que o nosso super-Ronaldo continue a ser súper!
ProfAP

Auto-golo no jogo Croácia-Nigéria? Não me parece...


Este Mundial parece propício a golos metidos na própria baliza.
O jornal "Record" garante que um jogador nigeriano marcou há pouco um "auto-golo". Mas não... A infelicidade de Oghenekaro deve-se ao facto de ter feito um... autogolo!
Neste caso, nem o Acordo Ortográfico justifica o valente pontapé na gramática do jornalista. A grafia sem hífen já era assim com o AO45.
REGRAS:
AO45
AO90
Com auto-, há hífen antes de vogal, h, r e s:
auto-estrada
auto-observação
auto-hipnose
auto-retrato
auto-suficiente
Com auto-, há hífen antes de o* ou h:
autoestrada
auto-observação
auto-hipnose
autorretrato
autossuficiente
Autogolo!
Autogolo!
*A regra geral do AO90 para a hifenização determina que há hífen antes de h ou quando a letra inicial do segundo elemento é igual à que vem no fim do elemento inicial: anti-ibérico, mega-assembleia, circum-murado, sub-bibliotecário, inter-regional, etc.

Abraço e viva a nossa seleção!
ProfAntónio

abril 01, 2018

mal criado, mal-criado ou malcriado?

Extrato do Facebook de Bruno de Carvalho:

Passando ao lado da guerra entre os presidentes do Sporting e do Braga, centremo-nos na grafia "mal criado". Certa ou errada?


Falando de educação (ou da falta dela!), devemos escrever malcriado!


Esta regra não é uma novidade do Novo Acordo Ortográfico, pois ele limita-se a dar uma nova redação à regra "antiga": Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios bem e mal, quando estes formam com o elemento que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou h. No entanto, o advérbio bem, ao contrário de mal, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante. Eis alguns exemplos das várias situações: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado; mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado; bem-criado (cf. malcriado)
Regra: 
Situações em que há hífen a seguir a BEM e MAL:
MAL
.   Apenas antes de vogal ou h
Ex.: mal-humorado e mal-educado.
BEM
. Antes de vogal ou h
Ex.: bem-humorado e bem-educado.
. E quando há unidade semântica.
Ex.: bem-criado, bem-comportado, bem-disposto, bem-feito, bem-intencionado, bem-mandado, bem-parecido, bem-nascido, bem-sucedido, bem-vindo, bem-visto, etc.


SUPERDICA:
Com bem, use sempre hífen
com mal apenas antes de vogal ou h!


Desejo a todos um feliz domingo de Páscoa!
ProfAP

março 20, 2018

Num manto feito de frio, chegou a primavera...

Ao cair da noite na horta, uma ameixeira vestiu-se a rigor para a nova estação. Lá mais para o verão, o branco perfumado das flores dará lugar ao vermelho suculento dos frutos...

Haiku dedicado à primavera:
蝶鳥の浮つき立つや花の雲
(chō tori no / uwatsuki tatsu ya / hana no kumo)

Matsuo Bashô (1644-1694)

Borboletas e aves
agitam o voo:
nuvem de flores.
Nota: No século XVII, no Japão, a primavera começava a meio de fevereiro, data do início do novo ano. A cada 2-3 anos, a data era ajustada, podendo recuar ou avançar dois a três dias, em função da primeira lua.

Abraço e que a primavera vos traga o principal bem de primeira necessidade: A ALEGRIA!

ProfAP



março 11, 2018

A tempestade chama-se "Féliks" ou "Félis"?


O mau tempo em Portugal marca presença na abertura de todos os serviços noticiosos. É ouvir os jornalistas a falar, de forma unânime, dos efeitos da tempestade “Féliks”.
A pronúncia de palavras como ónix, tórax, clímax e córtex parece dar-lhes razão, mas, na vida como na língua, nem tudo o que parece é…
Diz o Ciberdúvidas que a regra geral é que as palavras portuguesas terminadas em x conservem a pronúncia latina “ks” (como nos exemplos que vimos no parágrafo anterior), por terem vindo diretamente do latim (sem um processo evolutivo) e terem entrado no português no século XVI e seguintes.
Já cóccis e cálix (grafia antiga), com as pronúncias “cóccis” e “cális”, entraram na língua portuguesa antes do século XVI, havendo registos escritos, no século XIII, com a terminação s.
E Félix?
Félix entrou no português ainda na fase de formação da língua e há registos, no século XI, com a grafia Felici e Felice, com a pronuncia “Félis”, que se manteve mesmo quando se reintroduziu a grafia Félix.

RESPOSTA:
.
A tempestade é, sem dúvida, “Félis”!
.
Obs.: De uma forma simplista, podemos dizer que Félix tem uma grafia clássica e uma pronúncia popular.
Hélder Guégués, na obra Em português se faz favor (2015, editora Guerra e Paz), tem a mesma opinião: "Aproveite-se para lembrar que este nome se pronuncia Félis, como Fénix se pronuncia Fénis. Significativamente, a colecção poética do século XVII até apareceu intitulada A Fénis Renascida."

Notas:
1. Félix significa “feliz, sortudo” e o adjetivo feliz vem do latim felice.
2. Formado a partir do latim Felix, temos, com o mesmo sentido, Felício e também Feliciano (que entra no português apenas no século XVII). 
In https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/felicio/

Abraço e feliz final de domingo.
ProfAP

fevereiro 14, 2018

AMO-TE ou TE AMO?


Dizem as más-línguas (mas também as boas) que o amor é coisa complicada. Como vamos ver, exprimi-lo também tem os seus quês.
Quanto ao dilema “Amo-te” ou “Te amo”, a resposta, longe de ser sim ou não, é depende…
A. 
AMO-TE
1. Na afirmativa, quando é uma frase ou a inicia:
.AMO-TE!
.AMO-TE mais do que a mim a próprio.
.Então, olhou para ele e disse-lhe com emoção: AMO-TE!
B. 
TE AMO
1. Na negativa:
Não TE AMO!
2. Quando não inicia a frase, sobretudo depois de QUE:
.É claro que TE AMO muito!
.Podes ter a certeza de que TE AMO desde o dia em que te vi.
.Se soubesses realmente como TE AMO, terias mais confiança em mim.
Mas: No Brasil, a letra e a música são outras. É sempre TE AMO (“Tche amo”)!

É bom não esquecer: hoje, mas também ontem e sempre, “é urgente o amor”! (Eugénio de Andrade)
Abraço.
ProfAP
Imagem encontrada AQUI.