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setembro 10, 2012

.de/por mote próprio, moto próprio ou motu proprio?

Há duas semanas, encontrei a expressão “de mote próprio” na revista Visão.
Esta forma incorreta de dizer “espontaneamente, por iniciativa própria” surge com alguma frequência:
1. “Imagino que de mote próprio jamais pensaria em coreografar ou fazer a minha dança incidir e inspirar-se no trabalho do Tarkovsky.”  (Sítio da Companhia Nacional de Bailado).
2. “Foi mesmo o primeiro-ministro quem resolveu, por mote próprio, assumir este Orçamento como integralmente seu, esperando colher sozinho os seus frutos.» (Jornal Diário de Notícias, via http://letratura.blogspot.pt).
3. «A história do projeto europeu mostra que a Europa avançou como desafio unitário mais por necessidade do que por mote próprio.» (Jornal Público, via  http://linguagista.blogs.sapo.pt).

CONCLUSÃO:
1. Em Portugal, podemos usar moto próprio ou a expressão latina motu proprio (em itálico e sem acento).
2. No Brasil, apesar de algumas dúvidas resultantes da consulta de alguns dicionários, parece-me que também é correto usar moto próprio e motu proprio. O Dicionário Online do Português vai nesse sentido: “De ou por moto próprio, por movimento espontâneo, por sua vontade, sem constrangimento, sem provocação nem convite. (Usa-se também a forma lat. motu proprio.)”. In http://www.dicio.com.br

E é de motu proprio que me despeço com um abraço!
AP

.Acordo: como fazer a translineação?

Na sequência de perguntas de vários colegas, abordarei hoje a questão da translineação (forma de separar as palavras nas mudanças de linha).
O texto do Novo Acordo, diz pouco sobre o assunto, dedicando-lhe apenas o ponto 6. da Base XX:
Na translineação de uma palavra composta ou de uma combinação de palavras em que há um hífen ou mais, se a partição coincide com o final de um dos elementos ou membros, deve, por clareza gráfica, repetir-se o hífen no início da linha imediata: ex- -alferes, serená- -los-emos ou serená-los- -emos, vice- -almirante.
Nota: A repetição do hífen na linha seguinte, que era aconselhada, passou a ser obrigatória.
Algumas regras importantes:
1. Separam-se sempre:
a) Grupos formados por duas consoantes iguais: comum-mente /er-ro /os-so.
b) Os dígrafos sc, e xc: des-cer / cres-ça / ex-ceder.
2. O s que precede uma consoante forma sempre sílaba com o elemento que vem antes:  les-ma / cabis-baixo / pers-picaz / subs-tantivo.
3. Não se separam os grupos gu ou qu nunca se separam da vogal ou ditongo que vem a seguir, seja o u pronunciado ou não:  exa-guas / delinquen-te / quais-quer / lingua-gem.
4. Não se deve escrever no princípio ou no fim da linha uma só vogal (nem os ditongos, segundo o Ciberdúvidas). Assim, não se partem palavras como lua, água, , baú, rua e criam (a terminação “am” é lida como “ão”, ditongo nasal átono).
E para ver se a lição está sabida, aqui fica um exercício:
Em que sítios podem as palavras que se seguem ser partidas na translineação?
1. colmeia   2. égua   3. íman    4. dissesse   5. quando   6. Paraguai   7. liam
Exemplo de resposta a dar: autocarro pode partir-se   au-to-car-ro.
Veja as soluções no final desta mensagem.
Ao dispor,
ProfAP.
PARA SABER MAIS:
Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Lindley Cintra e Celso Cunha.(pp. 67 a 69).
http://estudarmais.no.sapo.pt/PDFPortugues/translinear2.pdf

Soluções:




1. égua, íman e liam não se separam, pois não se deve escrever no princípio ou no fim da linha uma só vogal ou ditongo. O "am" de "liam" é equivalente a um ditongo nasal.
2. col-meia. Pela razão indicada em 1., o "meia" é inseparável.
3. dis-ses-se. Separam-se sempre consoantes iguais.
4. quan-do, uma vez que gu ou qu nunca se separam da vogal ou ditongo que vem a seguir, seja o u pronunciado ou não.
5. Pa-ra-guai. Aplica-se a "guai" (tritongo) a regra referida em 4.

setembro 07, 2012

.dinossauro ou dinossáurio?

Imagem encontrada AQUI.

A. Em 1999, diz-se no Ciberdúvidas em relação à palavra dinossáurio: “Os linguistas que colaboram nos dicionários em Portugal podem registar este termo, mas, cientificamente, têm o dever de indicar: a) que ele foi mal formado; b) que tem uso restrito em alguns meios académicos; c) que se deve preferir o emprego de dinossauro, porque, além de etimologicamente correcto, é um termo corrente em Portugal e no Brasil.
B. Independentemente da etimologia, tanto em Portugal como no Brasil, os dicionários registam ambos os termos, o mesmo acontecendo com os Vocabulários do Portal da Língua Portuguesa e da Academia Brasileira de Letras.
CONCLUSÃO:
Atendendo ao que fica dito no parágrafo, é legítimo empregar dinossauro e dinossáurio como sinónimos em todo o espaço da língua portuguesa.

C. Origem de cada uma das palavras:
1. Dinossauro vem do grego deinós, «terrível» + saũros, «lagarto».
2. Quanto a dinossáurio, para Carlos Marques da Silva (colaborador do Museu Nacional de História Natural), deriva de Dinosauria:
O termo Dinosauria foi cunhado por Sir Richard Owen (n.1804 - f.1892), insigne médico e paleontólogo britânico. Owen apresentou na “British Association for the Advancement of Science”, em 1841, uma comunicação sobre répteis fósseis da Grã-Bretanha. Foi no texto impresso dessa comunicação, publicado em 1842, que surgiu pela primeira vez o vocábulo Dinosauria. O termo é, portanto, um neologismo, concatenado, latinizado e formalizado por Owen em meados do séc. XIX. É do termo Dinosauria, e não de uma pseudopalavra grega ancestral, que deriva o vocábulo português dinossáurio.
Quando surge o termo em português? É difícil responder com exactidão a esta pergunta. Todavia, cabe a João Bonança (1891) a primeira referência conhecida a dinossáurios em Portugal.

Abraço.
AP

setembro 06, 2012

.preia-mar, preia mar ou preamar?

Foto tirada há dois dias ao pôr do sol na preia-mar (em Sesimbra)

A colocação ou não de hífen nos compostos (caso diferente das formações por prefixação) depende de haver ou não uma unidade de sentido, em que as duas palavras formam um todo (como em guarda-noturno, primeiro-ministro ou arco-íris). Em preia-mar (nome) há essa unidade semântica, pelo que é obrigatório o uso do hífen.

CONCLUSÕES:
Embora a origem seja a mesma (do latim plenamare):
1. Para Portugal, a resposta é preia-mar (plural preia-mares). Os dicionários também registam a variante praia-mar da linguagem popular.
2. A Academia Brasileira das Letras do Brasil regista preia-mar. Quanto aos dicionários, uns registam a palavra sem anotações, outros ou não a registam ou associam-na a Portugal. Todas as fontes registam uma forma que avançou para um patamar diferente, aglutinando, e parece ser a utilizada no Brasil: preamar.

Abraço.
AP

setembro 05, 2012

.Paralímpico, paraolímpico ou para-olímpico?

Imagem encontrada AQUI.

Este é um caso muito interessante que mostra que as línguas são organismos vivos, dinâmicos, mutáveis e... imprevisíveis!
A. Portugal
1. Em 2000, na resposta a um consulente, diz-se no Ciberdúvidas: “Nunca paralímpico, mas sim paraolímpico ou mesmo parolímpico. O segundo elemento não é susceptível de perder a vogal inicial (olímpico). Embora se veja para aí a primeira grafia, não deixa de ser (como costumo afirmar!) um mamarracho!
2. Em 2005, Margarita Correia do ILTEC também é taxativa: “Paraolímpico (e não “paralímpico”, nem “para-olímpico)”. Pode ler o texto AQUI.
3. Em 2008, também o Diário do Alentejo afinava pelo mesmo diapasão:paraolímpico, e não "paralímpico" (…).Suprimir a vogal o significaria atentar contra a integridade semântica da palavra, formada a partir de olimpíadas.
4. Em contracorrente relativamente à opinião generalizada, Pedro Mendes, numa resposta nas “Dúvidas Linguísticas” da Priberam, dizia em 2004: “As formas paraolímpico e paralímpico encontram-se ambas registadas em vários dicionários de língua portuguesa e nenhuma delas pode ser considerada incorrecta.
A forma preferencial deverá ser paraolímpico,(…).
5. No seu dicionário (de 2001), a Academia das Ciências de Lisboa regista apenas para-olímpico. Trata-se certamente de um lapso, pois esta forma de escrever não respeita as regras de uso do hífen. O prefixo para- (como in-, des- ou trans-) aglutinava sempre em 2001. Logo, não podia haver hífen.
6. Atualmente, o “mamarracho” referido em 1. não só já não o é como passou a figurar em todos os dicionários e também no Portal da Língua Portuguesa.

B. Angola
O termo paralímpico já é usado oficialmente pelo menos desde 2003.

C. Brasil
1. Dos cinco dicionários consultados, apenas o Dicionário Online de Português regista paralímpico. Também o Vocabulário da Academia Brasileira das Letras ignora esta forma.
2. No entanto, há menos de um mês, em agosto de 2012, saiu na revista Veja um artigo do escritor brasileiro Sérgio Rodrigues a dar conta da entrada irreversível do paralímpico no português do Brasil (AQUI).
3. Segundo o “site” LANCE!NET, a mudança para paralímpico foi sugerida pelo International Paralympic Committee, tendo o Comité Organizador dos Jogos Rio 2016 sido a primeira instituição brasileira a adotar a nova grafia. Pode ler dois artigos sobre o assunto AQUI e AQUI.

CONCLUSÕES:
1. Não há fundamento para escrever para-olímpico.
2. Embora vá continuar a escrever paraolímpico, pelo que fica dito, parece-me que ambas as formas (paraolímpico e paralímpico) estão legitimadas tanto na norma luso-africana como na brasileira!

Notas:
1. a) Paralímpico vem do inglês paralympic (amálgama de para(plegic)+(o)lympics);
    b) Paraolímpico resulta da junção do prefixo grego para- à palavra olímpico (do grego olympikós, «de Olímpia», pelo latim olympĭcu-);
2. Os franceses (paralympique), os espanhóis (paralimpico) e os alemães (paralympishe) também navegam nas águas paralímpicas.

Abraço
AP
 

setembro 04, 2012

.maduro ou maturo?


Na sequência da estadia de dois dias num hotel no Alentejo, recebi um formulário online para avaliar a qualidade dos serviços prestados. Nas opções de caracterização do cliente, surgia, entre outras, a opção “casal maturo”. E assim nasceu o dilema de hoje.
Em Portugal, a generalidade dos dicionários regista ambas as formas, embora a entrada maturo remeta sempre para maduro. O único dicionário que não regista maturo é o da Academia das Ciências de Lisboa (edição de 2001).
Em relação aos cinco dicionários do Brasil que consultei, todos registam as duas formas, mas classificam maturo como um termo “antigo”.
CONCLUSÃO:
Tanto em Portugal como no Brasil, a forma preferencial parece ser maduro, mas, de acordo com as fontes consultadas, a utilização de maturo é aceitável.

Notas:
1. Ambas as palavras provêm do latim matūru-.
2. O antónimo tanto de maturo como de maduro é imaturo.

Abraço.
AP

setembro 03, 2012

obrigado ou obrigada?

Fonte da imagem: AQUI.

Este é um assunto em que as respostas taxativas não sáo fáceis de dar, pois não há unanimidade em relação à catalogação gramatical das palavras obrigado(s) e obrigada(s). O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, diz que são interjeições, para o Houaiss são adjetivos (participiais) e a Porto Editora regista as duas classificações. Vamos à sistematização possível:
A. Para a generalidade dos autores, obrigado deve concordar em género e em número com o sujeito/emissor, ou seja, quem está no uso da palavra.
Veja-se este exemplo adaptado de um blogue (AQUI):
"As alunas, emocionadas, disseram:
-- Obrigadas, professora. Jamais nos esqueceremos de suas aulas.
-- Eu é que devo dizer obrigada pelo vosso empenho, queridas alunas."
B. O Ciberdúvidas refere a posição do seu consultor Peixoto da Fonseca que, não discordando do que ficou dito em A., “defende, contudo, que obrigado é também usado como interjeição e que a concordância pode ser neutralizada, quando uma mulher agradece. Deste modo, Obrigado! pode ter como emissor ou um indivíduo do sexo masculino ou outro, do sexo feminino, ou ainda um grupo, independentemente do sexo dos falantes. Ainda dentro desta perspectiva, observa-se que o uso não consagrou a situação inversa, a de um homem agradecer com "Obrigada!".

CONCLUSÃO
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)

  Emissor
Enunciado
1 homem
Obrigado
1 mulher
Obrigada
2 homens ou 1 homem e 1 mulher
Obrigados
2 mulheres
Obrigadas
Mas:
Se incluirmos estas fórmulas na classe das interjeições, é aceitável, seguindo a perspetiva de Peixoto da Fonseca, que uma mulher ou um emissor no plural digam “Obrigado!”. No entanto, o uso de “Obrigada!”, “Obrigadas!” ou “Obrigados!” terá estar em sintonia com o género/número do emissor.
Conselho final:
Considerando o conteúdo do excerto (também do Ciberdúvidas) que passo a transcrever, o mais seguro será usar obrigado(s) ou obrigada(s), em função do emissor: “Note-se, no entanto, que Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), indica que obrigado é uma interjeição flexiva, registando a forma muito obrigada. Parece, pois, poder-se concluir que a concordância deve ser observada.

Abraço.
AP