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julho 18, 2019

Bijagós 6 - momentos mágicos: fauna 1

Parece perto, mas foi fotografado a uma boa distância com zoom.


Depois do almoço, quando regresso ao bungalô para ler e dormitar um pouco, este amigo imponente está sempre pousado no alto da mesma árvore a espreitar-me. Quando falo com ele em português (“Olá, Jonas, abutre lindo!”), estica o pescoço na minha direção com ar intrigado. Deve ser por eu não lhe falar na língua bijagó… 
A propósito, abutre em bijagó diz-se "cangúlú".
Abraço.
AP

julho 13, 2019

Bijagós 5 - momentos mágicos: flora 1

Foto tirada hoje antes do pequeno-almoço...


O embondeiro (aqui conhecido como cabaceira, embora receba outras designações no espaço da língua portuguesa: adansónia, baobá, calabaceira,  melambeira, micondó) dá uma flor magnífica. Diz-se que dura apenas uma noite, abrindo ao pôr do sol.
Durante a noite, os morcegos vão de de flor em flor e sugam o néctar, garantindo a polinização.

Abraço.
AP

julho 12, 2019

Bijagós 4 - À pesca... da língua portuguesa e não só!

Quem havia de dizer...

Há dias, fui com a equipa de pesca do hotel que costuma acompanhar os turistas nas expedições. Objetivo: treinar o vocabulário e as estruturas, sobretudo os verbos, para dar instruções nos procedimentos a seguir. Acharam que eu deveria assumir o papel de professor-pescador para tornar as interações mais realistas. Aceitei, embora a minha única experiência de pesca esteja longe de ser gloriosa. Calculo que queiram saber porquê... Tá bem, não é preciso insistir mais, eu conto.
Há uns bons 20 anos, numa manhã enevoada (que me disseram excelente para uma boa pescaria) de outubro ou novembro, munido de uma cana de pesca, fio, anzol e uma chumbada (tudo comprado no chinês) e isco comprado numa loja de pesca, instalei-me numa das praias de Troia, junto à cidade de Setúbal. A "minha" Cecília sentou-se num banquinho e, embrulhada na toalha, mergulhou na leitura de um livro. Lancei a linha, esperei um bocado... e nada. Voltei a lançá-la, uma e outra vez, e sempre nada. Um pouco desiludido com a situação (até tinha prometido que íamos ter peixe ao jantar pescado por mim...), pousei a cana e fui andar um pouco junto ao mar. Então, apercebi-me de que, a poucos metros de distância, estava um senhor a pescar. Quando passei junto ao baldinho que tinha na areia, vi que tinha vários peixes. Concluí que o sítio que tinha escolhido era bom, logo, o problema estava na técnica. Voltei a pegar na cana e pus-me a observá-lo. E percebi que ele ganhava mais balanço do que eu no momento de lançar a linha. Juntei uma segunda chumbada e, ganhando todo o balanço que consegui, atirei a linha que, potenciada pela chumbada extra, partiu velozmente para o mar. Vá lá saber-se porquê, quando ficou todo esticado, o fio partiu-se e continuou em grande velocidade em direção à linha do horizonte com o anzol, o isco e as duas chumbadas. Nunca mais os vi.
Desgostoso, disse à Cecília: "Acabou-se a pesca!" Intrigada, respondeu: "Então, porquê?" Contrariado, expliquei-lhe o sucedido. Riu-se que nem uma perdida e, ainda hoje, quando recordamos a situação, se ri com gosto.
Voltando ao papel de professor-pescador, na primeira paragem, lançámos uma linha que estava enrolada numa tábua para capturar peixes não muito grandes. Todos apanharam peixes... exceto eu. O isco ficou intacto, embora eu tivesse seguido as instruções à risca. Parecia macumba...
Retirámos as linhas da água e partimos para a zona onde se apanham os peixes maiores. Embora eu não o quisesse, destinaram-me uma cana sofisticada. Passado pouco tempo, esticões e mais esticões, como se estivesse um touro enfurecido agarrado ao anzol. Seguindo as indicações do Agostinho, encostei a ponta da cana à virilha (onde ainda tenho uma nódoa negra) e, com incentivos de todos, dei à manivela como se não houvesse amanhã. Quando a bicha chegou à superfície, puxaram-na para dentro do barco e abreviaram-lhe rapidamente o sofrimento. É bastante resistente e disseram-me que, mesmo fora da água, morde que se farta.
Continuámos a pescar, mas não houve mais capturas.
À chegada, a Solange fez questão de que o momento ficasse registado para posteridade. Não me reconverti à atividade piscatória, mas foi uma boa terapia para o trauma de Troia.

Abraço (cheio de picadas das formigas de asa que, em época de acasalamento, andam com os nervos à flor da pele)!
AP

julho 10, 2019

Bijagós 3 - Em ação!



Aula desta tarde com o grupo que trabalha na floresta (interrompida pela chuva forte que está a cair há quatro horas)...

Após a chegada, e depois de uma conversa com a Solange, dona do Ponta Anchaca (onde irei viver até ao final do mês), percebi que a planificação que trazia e as atividades previamente preparadas, com raras exceções, não eram adequadas.
Por e-mail, foi-me dito que a eu decidia “sur place” o que fazer e como fazê-lo. Resumindo e concluindo, qual o meu trabalho?
1. Falar com todos os funcionários, guineenses e senegaleses (88+14 estagiários vindos da ilha de Canhabaque) em português e interagirmos em todas as situações (quando nos encontramos e nos saudamos, quando saio com os que vão às compras à ilha de Bubaque, quando vão à pesca e eu vou com eles, enquanto trabalham, nomeadamente as camareiras, etc.).
O mesmo se aplica à “patronne”, nos momentos que partilhamos diariamente: ao almoço, que tomamos juntos, e quando vamos passear com os cães. Todos têm de falar em português, devendo eu corrigir-lhe os erros que interferem na comunicação.
2. Uma vez por dia, há uma sistematização (no escritório do hotel) de aspetos que correspondam às dificuldades detetadas. Para não interferir com o trabalho de cada um com o facto de o crioulo ser aqui a língua “sagrada”, a presença nas sessões teóricas não é obrigatória. Logo, a minha aluna regular é a Solange. Alguns funcionários vêm espreitar (pois acham divertido eu ser o professor da patroa), assistem uns minutos e voltam para os seus afazeres.
Nos próximos dias, vou acompanhar o Omar (excelente cozinheiro português) para que possa aprender os atos de fala mais comuns nas interações, visando a comunicação em português com os clientes.
 A Solange é uma aluna assídua, aplicada e aprende depressa. E faz sempre os trabalhos de casa!
Conclusão: trabalho “duro” o meu, mas alguém tinha de o fazer…
Abraço.
AP
Nota: Esta missão resultou de um desafio que me foi lançado pelo representante do AICEP em Bissau (Tiago Bastos). Esteve em banho-maria desde 2016, concretizando-se agora.

Bijagós 2 - Viagem Bissau-Rubane


Agendado para 5 de julho ao fim da manhã, o trajeto Bissau-Rubane (ilha sagrada dos Bijagós) foi adiada para o dia seguinte, devido a uma forte tempestade que tornava a navegação perigosa no arquipélago.
No dia 6 às 9h00, entrei no barco e vestiram-se um colete salva-vidas e um casaco supostamente antichuva. 

Acondicionado estrategicamente (para não provocar desequilíbrios de peso) entre bidões de gasolina, paletes de vinho tinto francês e água Castello, partimos do porto da alfândega de Bissau.
Esperava uma viagem tranquila, sem sobressaltos, mas… puro engano! Já em mar aberto, a forte ondulação erguia no ar a parte dianteira do pequeno barco de fibra de vidro que se abatia com estrondo sobre o mar, como se uma parede se tratasse, com efeitos devastadores para as minhas cruzes. Quando o barco batia na água, o meu rabo saltava e voltava a cair, com determinação, no assento improvisado. Parecia que, a qualquer momento, o barco ia ceder e deixar-se engolir por aquela imensa e revolta massa plúmbea. 

Pensei para mim: “Epá, se tiver de ir desta para melhor, que seja no regresso!”
Mais ou menos a meio da viagem, surgiu no horizonte uma massa negra e compacta que parecia uma montanha. Disseram-me eram nuvens de chuva que estavam à nossa espera.

Enquanto pensava naquela personificação tão expressiva do Agostinho, começou a chover. Parecia uma coisa banal, mas, uns minutos depois, veio uma chuva tão forte e cerrada que picava na pele. Só tive tempo para guardar a máquina fotográfica e o telemóvel contra o peito, debaixo do salva-vidas, enfiar a cabeça no capuz e tapar a cara. Resignado, fiquei ali, quieto como um monge em oração. Esforços vãos, pois, animada de uma vontade perversa, a água entrava por todo o lado. Fiquei todo ensopado, incluindo naquelas partes que não preciso de nomear. Uma lástima! 
O barco teve de parar quando a visibilidade ficou reduzida a quase nada.
Uns minutos depois, seguimos viagem.
Pouco depois, a massa negra desfez-se e abriu-se um arco como que a dar-nos passagem...

Depois de duas horas de provação, chegámos (finalmente!) à joia do arquipélago. 

Mal saí do barco e pus os pés na água tépida, avistei a figura franzina da Solange a caminhar na praia na minha direção. Com um grande sorriso, atirou-me: "Alors, Antôniô, ça a été dur?" Respondi-lhe, fazendo das tripas coração: "Ah non, pas de problème." Concluiu: "Vous êtes un homme courageux!" Pois sou! :)
Abraço.
AP

julho 07, 2019

Bijagós 1 – Chegada a Bissau e aventura num táxi...

Em busca do fio perdido...

4-7-19: Com um atraso de uma hora, o voo da TAP partiu para Bissau ao fim da tarde. Depois de uma viagem tranquila e uma refeição quente, a substituir a habitual sandes fria e sem sabor, aterrámos em Bissau pela noite dentro. 
À saída do aeroporto, o volume das duas malas e um saco a rebentar pelas costuras deve ter chamado a atenção dos controladores, pois mandarem-me pôr a bagagem em cima de uma mesa para ser revistada. Chateado até ao tutano, abri o cadeado da primeira mala. Assim que abriram o fecho, caíram cadernos, lápis e esferográficas em todas as direções. Quando disse que era professor voluntário e que aquilo eram materiais que tinha trazido para os alunos, um dos verificadores olhou-me com ar de aprovação, sorriu e, depois de me ajudar a apanhar o que caíra da mala, disse-me que não precisava de mostrar mais nada e que podia seguir.
Depois de sair do aeroporto, seguiu-se a odisseia de descobrir onde estava quem me ia buscar, uma vez que tinha feito a reserva do transfer ao hotel onde iria pernoitar. Enviei na véspera da viagem um e-mail a perguntar como nos iríamos reconhecer. Resposta obtida: “Ok, Sr. António”. Depois de 10 minutos de busca infrutífera, como não tinha número guineense, telefonei para o hotel com um cartão que trazia de Portugal, quase esgotando o saldo. Disseram-me que andavam à minha procura e não me encontravam. Descrevi-me e disse que ia estar de braço no ar com um saco amarelo na mão. O efeito obtido foi ser abordado por múltiplos taxistas. Quando lhes perguntava se eram do hotel para onde eu ia todos diziam que sim.
Já quase desesperava, sempre com o braço no ar, com o saco amarelo bem visível, quando ouvi uma voz sumida: “Sr. António...”. Era a pessoa que procurava, mas as confusões mal tinham começado. Como já não havia lugar no mini-bus do hotel, indicou-me um táxi que me transportaria. Poucos são os táxis bem conservados em Bissau, mas o interior daquele em que acabara de entrar deixou-me a impressão de ter sido vítima de um bombardeamento. A porta, esburacada por dentro, quase não fechava e havia fios à solta por todo o lado, principalmente no lado esquerdo do volante.
O jovem condutor, cego de um olho e com uma tosse cavernosa que não indiciava nada de bom, sorriu, cumprimentou-me e disse várias coisas em crioulo que não entendi.
Pouco tempo depois de termos iniciado a viagem, parámos e o jovem apontou para o meu telemóvel, dizendo repetidamente “luce”, “luce”. Percebi que queria que eu ligasse a lanterna. Com dois alicates, esteve durante longos minutos a tentar tirar um fio de dentro de um tubo e a torcê-lo. Perante a dificuldade da tarefa, ia dizendo coisas em voz baixa.
Prosseguimos a viagem, mas, quando nos aproximávamos do início do mercado do Bandim, voltou a parar dizendo “Polícia, no bene”, o que me deixou intrigado e já um pouco preocupado. Voltou a usar os alicates da forma já descrita. Quando saiu do carro e foi espreitar a frente do carro, entendi que o sistema elétrico estava avariado e que temia ser multado.
Prosseguimos viagem sem luz nos faróis, orientados pelas luzes traseiras de outros veículos e por um ou outro poste de iluminação pública. Quando não havia nem uma coisa nem outra, era um “Seja o que Deus (ou Alá) quiser!”
Depois de uma viagem de perto de uma hora (em condições normais, seria menos de meia hora), chegámos ao destino. Desventuras terminadas? Nada disso! O jovem queria que lhe pagasse 10€ pela viagem. Embora lhe tenha explicado que era ao hotel que tinha de pagar e não a ele, insistia em receber e, do que me dizia em crioulo, entendi os argumentos de que tinha família para sustentar e que o hotel não lhe ia pagar. Enquanto falava, segurava-me os braços e olhava para mim com ar suplicante. Para desbloquear a situação, disse que pagava 5€. Contrariado, acabou por aceitar, visivelmente com ar de quem se sentia enganado por mim.
Entrei no hotel e descubram lá o que aconteceu? Isso mesmo, paguei o transfer pela segunda vez…
Abraço.

junho 29, 2019

São Tomé na minha horta 4: matabala!

1. Foto tirada hoje.

Tendo trazido na bagagem, em março passado, um saco de matabala (branca e vermelha), ocorreu-me a ideia de semear uma na horta. Com a temperatura elevada da estufa e duas regas abundantes todos os dias, tentei recriar uma minifloresta tropical. A planta germinou e está a crescer como mostra a imagem. Resta saber se vai haver produção…
2. Matabala vermelha.

Faz lembrar o inhame, mas é mais gomosa. É consumida frita e cozida, mas também se fazem pastéis (que ainda não provei) e uma deliciosa sopa com especiarias, que degustei na Ilha do Príncipe e já recriei cá em casa.
3. Em fevereiro, numa floresta no Sul.

A maior parte das pessoas desconhece tanto o tubérculo como o nome que o designa: matabala em São Tomé e “kôkô” na Ilha do Príncipe. 
Originária da América do Sul, foi introduzida em São Tomé no século XVI. 
Até à independência, era-lhe dado pouco valor, sendo considerado alimento para dar aos porcos.
Depois da independência, e em particular nos anos 80 do século XX, passou a ser cada vez mais consumida e foi introduzida em alguns pratos para substituir a batata. O principal impulso para o seu crescente consumo deve-se aos pediatras e nutricionistas cubanos que convenceram as mães são-tomenses do seu alto valor nutritivo e incentivaram-nas a dar papas de matabala às crianças.

Abraço.
AP